segunda-feira, 18 de outubro de 2010

Minha versão masculina diria... - Parte 1

-- Ah... Ela estava sempre andando sobre seus saltos altos com aquelas coxas formidáveis. Sua pele morena quase me entorpeceu, e seu sorriso quase me cegou. Ela era definitivamente muita areia pro meu caminhãozinho com pneu furado: aqueles olhos quase gritavam que eu nunca iria tê-la nas mãos, aqueles olhos intensos. Ah, que olhos! Escuros como jabuticabas e pequeninos como pitangas. Eles combinavam perfeitamente com seu cabelo meio cacheado, seu nariz, e seu rosto com formas tão divinas que quase furavam os olhos desse pobre coitado que sou eu...
-- Se ela era tão divina, por que estava na Terra? -- Meu neto me perguntou.
-- Digamos que ela... Que ela... Que ela não fosse das mais santas. Com certeza aprontaria muito se continuasse por aqueles lados lá de cima. -- Ele me olhou com eles imensos olhos brilhantes. -- Se continuasse por lá, com certeza causaria à outros santos o pecado da luxúria, coisa que com certeza não seria tolerado.
-- Mas que coisa... -- Ele apoiou a cabeça em uma das mãos numa posição pensativa. -- Conte-me mais sobre ela, vovô.
-- Ela tinha cintura fina (e ah, que cintura!) que minha avó costumava chamar de "cintura de Bá".
-- Quem era "Bá"?
-- Provavelmente alguma escrava que tinha naqueles tempos. -- Fiz uma pequena pausa. -- Tínhamos muitas escravas bonitas naquele tempo. Se não me engano, ela era bisneta de uma de nossas escravas. Não era negra nem mulata; apenas era morena clara, mas se ficasse muito tempo sem tomar sol poderia ficar branca como sua mãe.
-- A mãe dela era branca?
-- É. A mãe dela era filha de um húngaro alto, cheio de pose, e muito cobiçado pelas moças quando novo. A mãe da mãe dela era filha de italianos. Era lindíssima mesmo depois que se tornou uma jovem senhora.
-- Como a mãe dela era?
-- A mãe dela ou a mãe da mãe dela?
-- A mãe de sua paixão da mocidade.
-- A mãe dela era... Alta, loura, olhos grandes e verdes como as árvores da praça em que a família de minha paixão vivia. Tinha seios fartos assim como a irmã de minha paixão... -- Ele me interrompeu.
-- E sua paixão? Tinha...? -- Ele fez uma concha com cada mão e balançou, simbolizando peitos.
-- Não, ela não tinha muito. Era só o suficiente. -- Suspirei por um segundo. -- Mas tinha lindos quadris e pernas invejáveis.
-- Minha avó chegou a conhecê-la?
-- Acredito que não.
-- Minha avó era mais bonita que ela?
-- Não conte pra ela, -- Eu sussurrei. -- mas Bia era muito mais bonita, mas sua avó era charmosíssima. Além do mais, Bia não era menina pra casar. Aliás, ela odiava pensar em casamento. Ela queria mais viajar o mundo, curtir uma paixão intensa... Mesmo porque ela nunca seria mulher pra se tornar mulher de casa. Meus pais nem poderiam sonhar que eu saía com a ''sirigaitazinha'' do bairro.
-- O que aconteceu depois?
-- Acredito que de forma ou de outra ela tenha se casado com um canalha qualquer que seus pais encontraram por aí. -- Suspirei novamente. -- Ele provavelmente não aproveitaria seus beijos doces e muito menos tocaria suas mãos macias carinhosamente. Me lembro de ter ouvido boatos do se casamento.
-- O senhor chegou a conhecer o marido dela?
-- Não. Se tivesse conhecido, talvez não estivesse aqui para contar a história. Diziam que ele dava o dobro de mim e que tinha cara de bêbado, de homem que bate em mulher, sabe?
-- Ela disse algo sobre o casamento?
-- Não, mas foi sorte que não tivesse dito. Talvez eu fizesse alguma loucura só pra ficar com ela.
-- O senhor falou com ela depois disso?
-- Não. Não fui corajoso o suficiente para ir atrás dela para ir confirmar a história, e nesse meio tempo eu conheci sua avó, então, acabei desistindo dela.
-- Você ama mais minha avó do que ela?
-- Mas é claro! -- Menti.

Continua...

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