Não guardo nenhuma recordação de alguma vez ter sido melhor que ela, não, nunca. Guardo as lágrimas atrás dos óculos de grau, atrás dos olhos, e se elas teimam em sair, vou até o banheiro, tranco a porta, dou-me apenas alguns segundos para recompor-me, olho para o espelho, "Tudo bem, vai passar. É apenas coisa da sua cabeça, meu bem.", respiro fundo, dou descarga mesmo sem haver nada ali, lavo as mãos, e volto normalmente, como se absolutamente nada houvesse acontecido. E sempre, sempre foi assim.
A Preferida nunca sofreu com nada assim. Quando chora, chora escandalosamente para que eu e o mundo possamos ouví-la e ampará-la, e não há mal nisso, é sempre normal. Sempre há motivo.
Se vissem aqueles poucos segundos meus no banheiro diriam "Ciúmes, é normal.".
Não, não é normal.
Não, não é.
Não, Preferida, você não tem culpa de ser a melhor filha. Eu já não me importo, por tantos anos foi assim e mais uma vez ou outra eu aguento. A solidão se tornou minha melhor amiga quando tudo estava dando errado, não há nada de errado em ficar sozinha, mas você não sabe como é isso, não sabe como é não ser a preferida.
Nunca fui e nunca serei. Tudo bem, pode ficar com isso. Eu não quero. Mas mande-me lembranças quando eu estiver longe daqui, quando eu puder chorar abertamente, quando eu for eu mesma e quando isso tudo for passado. Mande-me uma carta, uma foto, qualquer coisa, mas não traga-me de volta para esse inferno, Preferida. Que fique aqui você, eu tenho sonhos bem maiores.
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